Whittier: A Cidade de Um Prédio Só
Conheça a cidade no Alasca onde toda a população mora no mesmo edifício e o único acesso é um túnel que fecha à noite.

Se você perguntar a um morador de Whittier, uma cidade portuária encravada entre fiordes e geleiras no Alasca a cerca de 90 km a sudeste de Anchorage, como ele vai ao trabalho, à delegacia, à igreja ou ao supermercado, a resposta raramente envolverá tirar o carro da garagem ou colocar um casaco térmico pesado. Na maioria dos dias de inverno polar, tudo o que ele precisa fazer é apertar o botão do elevador.
Em Whittier, cerca de 85% a 90% de todos os cerca de 270 habitantes permanentes da cidade residem sob o mesmo teto: um maciço edifício de concreto armado de 14 andares construído durante a Guerra Fria chamado Begich Towers.
O edifício não é apenas um condomínio de apartamentos residenciais: ele opera como uma verdadeira cidade vertical autossuficiente. Nele funcionam a sede da prefeitura municipal, a delegacia de polícia com celas de detenção, a agência dos correios dos Estados Unidos (USPS), um minimercado de conveniência, uma clínica médica de pronto-atendimento, uma lavanderia comunitária, uma igreja evangélica no subsolo e até uma pousada para turistas de passagem.
A gênese militar: o bunker portuário da Segunda Guerra Mundial
A existência de Whittier como assentamento humano permanente foi forjada pela paranoia estratégica da Segunda Guerra Mundial e das primeiras décadas da Guerra Fria:
Em 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbor e a posterior invasão das Ilhas Aleutas, o Exército dos Estados Unidos precisava desesperadamente de um porto de águas profundas livre de gelo o ano todo e cercado por paredões montanhosos impenetráveis para desembarcar tropas e combustível sem risco de ataques por submarinos ou bombardeiros inimigos.
O local escolhido foi o fiorde de Passage Canal, batizado militarmente de Camp Sullivan. Para conectar o novo porto à malha ferroviária do Alasca (Alaska Railroad), engenheiros do Corpo de Engenheiros do Exército dinamitaram a montanha Maynard para perfurar o colossal Túnel Memorial Anton Anderson, concluído em 1943.
Na década de 1950, o exército decidiu transformar Whittier no maior centro logístico militar do Ártico, erguendo duas estruturas monumentais: o Edifício Hodge (concluído em 1957 com 196 apartamentos, rebatizado posteriormente de Begich Towers em homenagem ao congressista Nick Begich) e o gigantesco Edifício Buckner (que continha pistas de boliche, cinema e hospital).
Quando o devastador terremoto da Sexta-Feira Santa de 1964 atingiu o Alasca gerando tsunamis de 13 metros no fiorde, o Exército desativou a base militar. O edifício Buckner foi abandonado e virou uma assustadora carcaça de concreto em ruínas, mas os civis locais que operavam o porto e a ferrovia compraram os apartamentos das Begich Towers e transformaram o bloco na cidade mais compacta dos Estados Unidos.
"As pessoas nos perguntam se não temos claustrofobia de viver todos no mesmo prédio. Mas quando lá fora os ventos uivam a 130 km/h e caem seis metros de neve, não há lugar mais seguro e acolhedor na Terra do que Begich Towers."
A rotina sem casaco: túnel para a escola e isolamento extremo
O clima de Whittier é implacável: a cidade recebe em média 6,6 metros (260 polegadas) de neve todos os anos e suporta rajadas de vento do Golfo do Alasca que arrancam telhados e portas de veículos.
Para que a vida comunitária não parasse durante as nevascas, os engenheiros projetaram um sistema de sobrevivência subterrâneo genial:
- O Túnel Escolar Subterrâneo: As crianças que moram nas Begich Towers não precisam pisar na neve para ir à aula. No porão do prédio há uma porta corta-fogo que dá acesso a um longo túnel de concreto subterrâneo aquecido que passa por baixo da rua e desemboca diretamente dentro da Whittier Community School. As crianças vão para a aula de tênis e camiseta enquanto a tempestade ruge lá fora.
- A Delegacia no Corredor: O departamento de polícia de Whittier conta com um chefe de polícia e poucos oficiais baseados no primeiro andar. Se há uma ocorrência de perturbação do sossego ou vazamento hidráulico, o policial simplesmente pega o elevador.
- O Mercado e o Correio: No primeiro piso funciona o Kozy Korner, um pequeno mercado onde moradores compram leite, pão e enlatados de chinelos, e a agência postal onde toda a correspondência da cidade é retirada em caixas postais internas.
| Serviço / Rotina | Whittier (Begich Towers) | Cidades Convencionais do Alasca |
|---|---|---|
| Trajeto Até a Escola | Túnel subterrâneo a pé (sem sair ao ar livre) | Ônibus escolares e carros na neve |
| Acesso Terrestre | 1 único túnel de pista única compartilhado com trem | Rodovias interestaduais ou pistas abertas |
| Horário de Fechamento Viário | Túnel fecha rigorosamente das 22h30 às 05h30 | Acesso livre 24 horas (salvo avalanches) |
| Prefeitura e Polícia | Salas no térreo do próprio edifício residencial | Prédios administrativos municipais separados |
O Túnel de 4 km: a prisão com horário marcado para fechar
A única ligação terrestre entre Whittier e o restante do continente norte-americano é uma façanha de engenharia que dita o ritmo de vida de cada morador: o Túnel Memorial Anton Anderson, medindo 4.050 metros de comprimento sob a rocha pura.
O túnel é tão estreito que possui apenas uma única faixa de tráfego, onde os trilhos dos trens de carga da Alaska Railroad correm embutidos no próprio asfalto por onde transitam os carros de passeio e caminhões:
- O tráfego de veículos funciona em sistema de sentido único alternado: a cada 30 minutos, o fluxo inverte a direção de passagem.
- Quando um trem de carga ou comboio militar precisa passar, todo o tráfego rodoviário é bloqueado.
- E a regra mais implacável: todas as noites, às 22h30 pontualmente, os portões de aço maciço do túnel são fechados a chave até as 05h30 da manhã seguinte para manutenção e exaustão de gases. Se um morador volta tarde de uma consulta em Anchorage e chega ao portão às 22h31, ele é obrigado a passar a noite inteira dormindo dentro do veículo no acostamento congelado.
O Gigante Adormecido: O Buckner Building e a Rota de Seattle
Embora as Begich Towers concentrem praticamente toda a vida urbana atual de Whittier, a encosta vizinha abriga uma carcaça de concreto ainda mais colossal: o Edifício Buckner (Buckner Building). Construído pelo Exército norte-americano em 1953 com mais de 25.000 m² de área útil, o complexo já foi chamado de "A Cidade Sob o Mesmo Teto" original, abrigando dormitórios para 1.000 militares, cinema, boliche de seis pistas, padaria industrial e hospital de campanha militar.
O edifício resistiu intacto ao histórico Terremoto da Sexta-Feira Santa de 1964 (magnitude 9,2 na escala Richter), mas foi desativado em 1966 quando as Forças Armadas transferiram suas guarnições estratégicas. Hoje, a estrutura de seis andares permanece como uma impressionante cidade-fantasma brutalista de janelas quebradas e estalactites de gelo, frequentemente coberta por avalanches de neve e servindo como testemunha muda da Guerra Fria no Ártico.
Além de sua rotina claustrofóbica em um único edifício, Whittier desempenha uma função econômica invisível para todo o Alasca: seu porto natural localizado no fiorde de Passage Canal possui águas excepcionalmente profundas e jamais congela durante o inverno rigoroso. Graças a isso, balsas oceânicas gigantescas (*railbarges*) carregadas com vagões ferroviários e contêineres partem semanalmente de Seattle e desembarcam diretamente nos trilhos de Whittier, abastecendo os supermercados e as minas de Anchorage e Fairbanks com combustível, maquinário e suprimentos vitais.
Quer medir a distância até o Alasca no mapa?
Utilize a calculadora geodésica do VitaleGeo para traçar distâncias ortodrômicas entre o Brasil, o Alasca e as regiões mais isoladas do Círculo Polar.
Perguntas Frequentes sobre Whittier (FAQ)
Todos os moradores de Whittier realmente moram nas Begich Towers?
Cerca de 85% da população permanente mora no edifício Begich Towers. Os demais 15% residem em um condomínio menor chamado Whittier Manor (de dois andares), em pequenos barcos atracados na marina municipal durante o verão ou em pequenas cabanas funcionais de operadores portuários e da ferrovia.
De onde vem a economia da cidade para sustentar o condomínio?
A economia de Whittier apoia-se em dois pilares: o transporte logístico portuário de carga (balsas ferroviárias e navios petroleiros que transferem carga para trens com destino a Fairbanks e Anchorage) e o turismo de cruzeiros de verão. Durante os meses de junho a agosto, mais de 700.000 passageiros de navios de cruzeiro desembarcam no porto de Whittier para explorar as geleiras do Prince William Sound.
Como funciona o atendimento médico de urgência durante a noite?
A clínica nas Begich Towers possui enfermeiros e paramédicos para estabilização imediata. Em casos críticos de risco à vida ocorridos após o fechamento noturno do túnel (22h30), operadores acionam uma abertura emergencial dos portões via rádio para passagem de ambulância com escolta especial, ou helicópteros de resgate aeromédico voam diretamente do hospital de Anchorage se as condições meteorológicas de visibilidade permitirem.
Gostou deste post?
Inscreva-se no canal VitaleGeo para análises territoriais e novos mapas.
Continue Investigando
Como Barcelona Inventou os Superquarteirões para Tirar o Domínio dos Carros na Cidade?
Desenhada por Ildefons Cerdà em 1859, a malha ortogonal do Eixample virou o laboratório das 'Superilles', devolvendo 70% das ruas aos pedestres, crianças e comércio local.
Por Que Brasília Foi Desenhada em Formato de Cruz e Quais São os Limites do Plano Piloto?
Projetada em 1957 por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, a capital federal modernista aboliu as esquinas, inventou as superquadras e enfrenta hoje o dilema da segregação metropolitana.
Por Que Tóquio é a Maior Metrópole do Planeta Sem Sofrer Com Engarrafamentos Gigantescos?
Com 37 milhões de habitantes na Grande Tóquio, a capital japonesa desafia as leis do tráfego urbano através do modelo ferroviário integrado e do zoneamento unificado.