Durante quase quatrocentos anos ininterruptos, a busca pela mítica Passagem Noroeste foi o cemitério de algumas das expedições náuticas mais corajosas e trágicas da história marítima, custando a vida do explorador britânico Sir John Franklin e de seus 128 tripulantes em 1845 nas geleiras da Ilha do Rei Guilherme. Hoje, no entanto, o que a tecnologia das caravelas a vapor não conseguiu desbravar está sendo transformado pelo aquecimento global e pelo derretimento acelerado do gelo marinho no Ártico. Ao contornar o norte do Canadá e o Alasca através do estreito de Bering, essa rota marítima polar tem o potencial de reduzir em até 7.000 quilômetros a distância de navegação entre os maiores polos de manufatura da Ásia Oriental e os centros de consumo da Europa e da Costa Leste norte-americana, acirrando uma disputa de soberania feroz pelo novo canal comercial da Terra.

O pesadelo gelado da Expedição Franklin e o pioneirismo de Roald Amundsen em 1906

A obsessão pela Passagem Noroeste começou no século XVI com navegadores ingleses como Martin Frobisher e Henry Hudson, que sonhavam em encontrar um atalho pelo norte polar que evitasse as armadas espanholas e portuguesas no sul.

O ápice trágico ocorreu em maio de 1845, quando o contra-almirante britânico Sir John Franklin partiu da Inglaterra com os dois navios mais modernos da Marinha Real — o HMS Erebus e o HMS Terror —, equipados com motores a vapor e cascos blindados de ferro.

Os navios ficaram presos no gelo marinho de três metros de espessura perto da Ilha do Rei Guilherme. Ao longo de três invernos tenebrosos no escuro polar, todos os 129 homens morreram de escorbuto, fome e envenenamento por chumbo das rações enlatadas, com relatos aterrorizantes de canibalismo entre os últimos sobreviventes.

A primeira navegação completa e bem-sucedida da passagem só foi alcançada sessenta anos depois pelo lendário explorador norueguês Roald Amundsen, que entre 1903 e 1906 cruzou o canal a bordo do modesto pesqueiro de madeira Gjøa, aprendendo técnicas de sobrevivência com o povo inuíte.

A matemática das rotas: por que cruzar o Ártico supera o Canal de Suez e o Canal do Panamá

Para a marinha mercante global, a Passagem Noroeste representa uma revolução logística sem precedentes.

Atualmente, um navio porta-contêineres que zarpa de Xangai ou Tóquio com destino a Roterdã ou Londres precisa navegar cerca de 19.500 quilômetros contornando o Estreito de Malaca, o Mar Vermelho e o Canal de Suez (rota sujeita a ataques de rebeldes houthis e pedágios milionários), ou percorrer 23.300 quilômetros pelo Canal do Panamá.

Se o mesmo cargueiro utilizar a Passagem Noroeste através do Estreito de Bering e do arquipélago ártico canadense, a distância despenca para cerca de 14.500 quilômetros.

Isso representa uma redução de quase 7.000 km de rota, encurtando o tempo de viagem em 12 a 15 dias e economizando centenas de milhares de dólares em óleo combustível e emissões de carbono por navio.

O choque diplomático Canadá vs. Estados Unidos: águas territoriais ou estreito internacional?

A abertura comercial da rota desencadeou um conflito jurídico silencioso, mas feroz, entre aliados da OTAN.

O governo do Canadá reivindica que todas as águas do Arquipélago Ártico Canadense são águas históricas internas de soberania nacional exclusiva. Sob a doutrina de Ottawa, qualquer navio de bandeira estrangeira que deseje cruzar a passagem precisa solicitar autorização prévia, submeter-se a inspeções ambientais canadenses e contratar serviços locais de quebra-gelos e práticos.

Em contrapartida, os Estados Unidos e a União Europeia rejeitam frontalmente essa interpretação: sustentam que a Passagem Noroeste é um estreito internacional sob a Convenção de Montego Bay (UNCLOS), garantindo o direito de ‘passagem em trânsito’ desimpedido a navios mercantes e submarinos militares de qualquer país sem necessidade de autorização prévia.

O Incidente do Polar Sea (1985) e a militarização ártica com radares e quebra-gelos

Essa divergência quase provocou uma crise diplomática sem retorno em agosto de 1985, quando o quebra-gelo da Guarda Costeira americana USCGC Polar Sea cruzou a Passagem Noroeste da Groenlândia ao Alasca sem pedir autorização formal ao governo canadense.

A humilhação pública forçou o primeiro-ministro Brian Mulroney a traçar ‘linhas de base retas’ ao redor de todas as ilhas árticas e a assinar com o presidente Ronald Reagan o Acordo de Cooperação Ártica de 1988 — um pacto pragmático pelo qual os EUA concordaram em notificar Ottawa antes de enviar quebra-gelos, sem reconhecer formalmente a tese jurídica canadense.

Nas últimas décadas, diante da nova corrida geopolítica, o Canadá reforçou sua presença militar com o programa de navios de patrulha ártica da classe Harry DeWolf, bases avançadas de reabastecimento em Nanisivik e exercícios anuais de defesa com os Rangers Canadenses.

O interesse da China como ‘Estado Quase-Ártico’ e a Rota da Seda Polar

A corrida pelo Ártico ganhou um ator de peso colossal: a China. Embora esteja a milhares de quilômetros de distância do Círculo Polar, Pequim publicou em 2018 o seu ‘Livro Branco do Ártico’, autodeclarando-se oficialmente um ‘Estado Quase-Ártico’.

A liderança chinesa lançou o projeto da ‘Rota da Seda Polar’, investindo em quebra-gelos de propulsão convencional pesada e nuclear (como o Xue Long 2) e projetando a navegação comercial em grande escala pelo norte canadense e pela Rota do Mar do Norte russa.

Para Pequim, controlar e utilizar as rotas polares descongeladas é a chave mestra para escapar do chamado ‘Dilema de Malaca’ — o medo permanente de que a Marinha americana bloqueie o Estreito de Malaca em caso de conflito por Taiwan.

O que antes era o inferno branco de gelo perpétuo tornou-se o novo tabuleiro de xadrez militar e mercantil do século XXI.

"O Ártico não é mais a fronteira congelada e distante do mundo; ele é o novo corredor marítimo central que definirá o comércio e a segurança do século XXI."
— Mary Simon // Governadora-Geral do Canadá e primeira líder inuíte no cargo de chefia de Estado (2022)
Rota Marítima Distância Total Tempo Médio de Viagem Gargalo Estratégico / Risco
Via Canal de Suez 19.500 km ~32 dias de navegação Chokepoints de Malaca, Bab el-Mandeb (houthis) e Suez.
Via Canal do Panamá 23.300 km ~38 dias de navegação Restrições severas de calado por seca no Lago Gatún.
Via Cabo da Boa Esperança 26.000 km ~43 dias de navegação Contorno forçado da África; custo colossal de combustível.
Via Passagem Noroeste Ártica 14.500 km ~21 dias de navegação Presença de gelo marinho sazonal e disputa de soberania Canadá/EUA.

A Rota do Mar do Norte (NSR) Russa versus a Passagem Noroeste

Enquanto a Passagem Noroeste serpenteia pelo labirinto raso do arquipélago canadense (onde o Estreito de Barrow e o Estreito de McClure impõem limites de calado), a Rússia opera no lado oposto do polo a Rota do Mar do Norte (NSR), que possui águas mais profundas e uma frota de mais de 40 quebra-gelos atômicos com reatores nucleares que mantêm os comboios navegando mesmo durante os meses escuros de inverno.