Em 12 de novembro de 1893, na cidade de Cabul, o diplomata britânico Sir Henry Mortimer Durand e o Emir Abdur Rahman Khan assinaram um documento de apenas uma página e meia acompanhado de um mapa desenhado à mão. O objetivo do Império Britânico era simples: criar uma zona de amortecimento para proteger as ricas colônias da Índia britânica do avanço do Império Russo no ‘Grande Jogo’. O resultado prático foi uma das fronteiras mais artificiais e conflagradas da história moderna: a Linha Durand. Cortando de forma arbitrária montanhas inóspitas do Hindu Kush e desertos de Baluchistão por 2.670 quilômetros, a linha partiu ao meio o território ancestral da etnia pashtun, plantando sementes de guerra civil, refúgio de insurgentes e tensões geopolíticas que nenhum governo afegão aceita até hoje.

O ‘Grande Jogo’ entre Londres e São Petersburgo e a obsessão pela fronteira indiana

Durante todo o século XIX, o Império Britânico viveu em constante paranoia estratégica com a expansão territorial dos czares russos pela Ásia Central. Moscou havia conquistado sucessivamente os canatos de Bucara, Khiva e Samarcanda, aproximando suas divisas imperiais do Afeganistão.

Para os vice-reis britânicos na Índia colonial, o Afeganistão era a chave que trancava ou abria as portas para as férteis planícies do Rio Indo. Após duas guerras sangrentas e desastrosas — a Primeira Guerra Anglo-Afegã de 1839 e a Segunda de 1878 —, Londres desistiu de colonizar diretamente o país montanhoso.

A estratégia britânica passou a ser a criação de um Estado-tampão fraco e amigável. Em 1893, Sir Mortimer Durand foi despachado a Cabul para negociar a delimitação territorial.

O acordo traçou uma linha divisória de 2.670 quilômetros que transferiu para o controle britânico postos de montanha estratégicos e as chaves de acesso militar à Índia.

O Passo de Khyber: a garganta montanhosa por onde invasores marcharam por três mil anos

O ponto focal mais crítico de toda a Linha Durand é o célebre Passo de Khyber, uma garganta montanhosa estreita que rasga a cordilheira de Safed Koh a 1.070 metros de altitude, ligando a planície de Peshawar no Paquistão ao planalto de Jalalabad no Afeganistão.

Ao longo de três milênios, esse corredor estreito de 53 quilômetros foi a rota obrigatória de invasão por onde marcharam os exércitos de Alexandre o Grande, os cavaleiros mongóis de Genghis Khan, o imperador Babur (fundador do Império Mogol) e as brigadas imperiais britânicas.

Quem controla Khyber controla a circulação comercial e militar entre a Ásia Central e o subcontinente indiano. Durante a ocupação americana pós-2001, mais de 70% de todo o combustível e mantimentos da OTAN entravam no Afeganistão transportados por caminhões que cruzavam a fronteira em Torkham, junto ao passo.

A partilha colonial da etnia pashtun: famílias divididas por um traço no mapa

A maior tragédia humana e geopolítica da Linha Durand foi a total indiferença britânica em relação à geografia humana local. O traço a caneta dividiu ao meio a pátria histórica dos pashtuns, o maior grupo étnico tribal organizado do planeta, regido pelo rígido código de honra e vingança Pashtunwali.

Aldeias inteiras foram partidas: campos de cultivo ficaram de um lado da fronteira imaginária e os poços de água ficaram do outro; irmãos e primos tornaram-se cidadãos de entidades jurídicas opostas.

Atualmente, existem mais de 35 milhões de pashtuns vivendo no Paquistão e cerca de 15 milhões vivendo no Afeganistão.

Para essas tribos, a fronteira internacional nunca existiu no terreno: elas continuam atravessando as trilhas de montanha sem passaportes para casamentos, funerais e comércio, ignorando completamente as leis de Islamabad e Cabul.

O não reconhecimento de Cabul e a recusa histórica do Talibã à fronteira paquistanesa

Quando o Paquistão nasceu em 1947 após a partilha sangrenta da Índia britânica, herdou formalmente a Linha Durand como sua fronteira ocidental. No entanto, o Afeganistão foi o único país do planeta a votar contra a admissão do Paquistão na ONU em 1947.

A diplomacia de Cabul sustentava que o acordo de 1893 havia sido assinado sob coação militar e que sua validade caducou com a retirada colonial britânica, reivindicando que a verdadeira fronteira histórica afegã deveria se estender até o Rio Indo (o conceito de Pashtunistão).

A ironia geopolítica suprema é que, após décadas em que os serviços de inteligência do Paquistão (ISI) financiaram e armaram o movimento Talibã para conquistar profundidade estratégica, o Talibã de volta ao poder em 2021 recusa-se categoricamente a reconhecer a Linha Durand.

Combatentes do Talibã derrubam marcos fronteiriços com pás mecânicas e proíbem que militares paquistaneses estendam cercas divisórias na região.

A cerca de meio bilhão de dólares erguida por Islamabad e os tiroteios em Torkham

Cansado de ver seu território atacado por militantes do Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP) que se refugiam em santuários montanhosos afegãos, o Exército do Paquistão tomou uma medida radical a partir de 2017: cercar militarmente a Linha Durand.

A um custo superior a 500 milhões de dólares, o Paquistão instalou mais de 2.000 quilômetros de cercas duplas de arame farpado com quase três metros de altura, entremeadas por centenas de fortes de concreto, sensores térmicos e drones de vigilância.

A iniciativa gerou fúria tribal dos dois lados e confrontos armados recorrentes: guardas de fronteira paquistaneses e guerrilheiros afegãos trocam disparos de metralhadoras pesadas e artilharia com frequência, forçando o fechamento frequente das passagens de Torkham e Chaman.

A linha desenhada por um diplomata imperial vitoriano há 133 anos continua sendo uma das feridas territoriais mais instáveis e inflamadas do mapa mundial.

"Nenhum governo afegão, seja ele uma monarquia, uma república, um regime comunista ou o Emirado Islâmico, jamais reconheceu ou reconhecerá a Linha Durand como fronteira internacional."
— Hamid Karzai // Ex-presidente da República Islâmica do Afeganistão (2017)
Marco Histórico Ano Potências Envolvidas Impacto Territorial
Tratado de Gandamak 1879 Grã-Bretanha e Afeganistão Cabul cede o controle do Passo de Khyber após a Segunda Guerra Anglo-Afegã.
Acordo da Linha Durand 1893 Sir M. Durand e Emir Abdur Rahman Demarcação teórica da fronteira de 2.670 km dividindo a nação pashtun.
Voto Contrário na ONU 1947 Afeganistão e Paquistão Cabul rejeita a entrada do Paquistão na ONU por não aceitar a fronteira herdada.
Cercamento da Fronteira 2017–2023 Exército do Paquistão Instalação de 2.000 km de cerca de arame farpado e sensores militares.
Retorno do Talibã 2021–2026 Talibã e Paquistão Destruição de cercas e tiroteios contínuos nos postos de fronteira.

O Fenômeno das FATA: A Terra Sem Lei nas Montanhas

Durante mais de um século, as Áreas Tribais sob Administração Federal (FATA) no lado paquistanês da Linha Durand foram governadas por um código colonial vitoriano de 1901 que proibia a atuação de tribunais civis e da polícia comum, permitindo punições coletivas por anciãos tribais. Essa ausência de autoridade estatal transformou a região no santuário ideal para a al-Qaeda e o Talibã após a invasão americana de 2001, culminando na fusão tardia das FATA à província de Khyber Pakhtunkhwa em 2018.