O Cazaquistão na Eurásia central
FIG 01 // Cazaquistão, o nono maior país do planeta e o coração da Eurásia central.

O Cazaquistão é o maior país sem litoral da Terra, cobrindo 2,72 milhões de km² de estepes e desertos no coração da Ásia Central. Mas o dado geoeconômico mais estarrecedor sobre o país está debaixo do solo: a estatal cazaque Kazatomprom controla mais de 43% de toda a produção mundial de urânio primário. Se os poços cazaques pararem por um trimestre, reatores nucleares nos Estados Unidos, França, Japão e China entram em crise imediata de combustível.

A revolução da mineração in situ (ISR)

Diferente da Austrália e do Canadá, que extraem minério de urânio em poços a céu aberto ou galerias subterrâneas profundas com custos astronômicos, o Cazaquistão desenvolveu em larga escala o método de Recuperação In Situ (ISR).

Nos arenitos permeáveis das bacias de Chu-Sarysu e Syrdarya, técnicos injetam uma solução ácida diluída através de poços tubulares. O ácido dissolve o urânio diretamente na rocha porosa subterrânea sem escavar um único metro de terra. A solução carregada de urânio é então bombeada de volta à superfície, gerando o yellowcake com o custo de extração mais baixo do mundo (menos de US$ 25 por libra).

A balança entre a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping

Cercado ao norte por uma fronteira de 7.644 quilômetros com a Rússia e a leste por 1.782 quilômetros com a China, Astana é o mestre da chamada diplomacia multivetorial.

Historicamente, a maior parte do urânio cazaque era refinada e escoada por portos russos em São Petersburgo sob a supervisão da russa Rosatom. No entanto, desde 2022, o presidente Kassym-Jomart Tokayev acelerou o redirecionamento estratégico de suas cargas energéticas, abrindo joint ventures diretas com a gigante francesa Orano, operadoras americanas e a estatal nuclear chinesa CNNC.

"O Cazaquistão é o centro inegociável da transição energética nuclear. Sem o urânio das estepes, não há metas climáticas ou energia de base viável para o mundo ocidental."

— Relatório de Inteligência Energética da Agência Internacional de Energia (AIE).

O Corredor Médio e as rotas que contornam a Rússia

O maior desafio geopolítico do Cazaquistão é ser um país sem acesso aos oceanos abertos. Para exportar seus minérios, petróleo e urânio sem depender das ferrovias vigiadas de Moscou, Astana converteu-se no líder do Corredor Médio (Rota Internacional de Transporte Transcaspiana - TITR).

Os trens partem das minas cazaques, chegam aos portos de Aktau e Kuryk no Mar Cáspio, cruzam de navio até Baku no Azerbaijão, e de lá seguem por ferrovia pela Geórgia e Turquia até alcançarem o Mar Mediterrâneo e a Europa Ocidental. Em 2025 e 2026, o volume de cargas nesse corredor cresceu mais de 65%, consolidando o Cazaquistão como o elo insubstituível da Nova Rota da Seda.

Dimensão Continental

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Muito além do urânio: petróleo, cromo e terras raras

O urânio é apenas uma das cartas na mesa do xadrez cazaque. O campo offshore de Kashagan, no norte do Mar Cáspio, guarda a maior descoberta de petróleo do planeta dos últimos 40 anos, com reservas estimadas em 13 bilhões de barris.

Além disso, o país detém as maiores reservas globais de cromo e depósitos massivos de barita, titânio e terras raras pesadas. Ao controlar a chave da matriz atômica do planeta e as rotas terrestres entre a Ásia e o Ocidente, o Cazaquistão provou que a geografia sem mar não é uma prisão, mas a maior alavanca de poder geoeconômico da Eurásia.