Vista das águas profundas do Estreito de Sunda na Indonésia
FIG 01 // Vista aérea do Estreito de Sunda, canal vulcânico entre as ilhas de Sumatra e Java na Indonésia.

O Estreito de Malaca é o chokepoint comercial mais famoso do mundo, por onde navegam mais de 90 mil cargueiros a cada ano. No entanto, para os comandantes de submarinos nucleares da Marinha dos Estados Unidos e da Marinha da China, Malaca é uma armadilha perigosa. Com profundidades mínimas de apenas 25 metros em certos pontos do Canal de Phillips, um submarino moderno de grande porte seria forçado a navegar na superfície ou arrastaria sua quilha na lama, tornando-se alvo fácil para sonares e satélites inimigos. Por essa razão, as potências navais utilizam rotas secretas e abissais no arquipélago da Indonésia: os Estreitos de Sunda e Lombok.

O limite "Malaccamax" e o perigo das águas rasas

A bacia de Malaca situa-se sobre a plataforma continental rasa de Sunda. Essa geografia impõe um limite físico estrito conhecido como padrão Malaccamax: embarcações com calado superior a 20 metros ou comprimento maior que 333 metros correm risco constante de encalhe nos bancos de areia e nos destroços de naufrágios históricos.

Submarinos balísticos de propulsão nuclear da classe Ohio (norte-americanos) ou Tipo 094 Jin (chineses) medem até 170 metros de comprimento e deslocam quase 19 mil toneladas quando submersos. Tentar passar por Malaca em imersão tática é praticamente suicídio operacional: além do risco de colisão contra cargueiros civis gigantescos, as camadas térmicas rasas da água não mascaram o ruído dos motores e das hélices.

Lombok: a trincheira de 1.000 metros de profundidade

Localizado entre as ilhas de Bali e Lombok, o Estreito de Lombok é o oposto geológico de Malaca. Trata-se de uma falha tectônica oceânica profunda pertencente à célebre Linha de Wallace.

Em sua calha central, o Estreito de Lombok atinge profundidades assombrosas que variam entre 250 e mais de 1.000 metros. Para os estrategistas do Pentágono, Lombok é a verdadeira "autoestrada submarina": submarinos nucleares de ataque podem cruzá-lo a 25 nós em imersão total e profunda, vindo da base de Diego Garcia no Oceano Índico até o Mar das Filipinas, sem emitir ruído na superfície e sem serem detectados por radares de patrulha aérea.

"Quem controla os estreitos profundos da Indonésia controla a passagem discreta das frotas de dissuasão nuclear entre o Oceano Índico e o Oceano Pacífico."

— Doutrina de Guerra Anti-Submarina do Comando do Indo-Pacífico dos EUA (USINDOPACOM).

Os superpetroleiros VLCC e o Estreito de Sunda

Entre as ilhas densamente povoadas de Sumatra e Java fica o Estreito de Sunda, dominado no centro pelo vulcão Krakatoa. Embora seja estreito e tenha fortes correntes de maré em sua boca oriental, a porção ocidental de Sunda atinge profundidades superiores a 100 metros.

Além de servir de rota alternativa para frotas de guerra, Lombok e Sunda são o caminho obrigatório para os superpetroleiros das categorias VLCC (Very Large Crude Carriers) e ULCC (Ultra Large Crude Carriers), gigantes de 300 mil a 500 mil toneladas que transportam petróleo bruto da Arábia Saudita para o Japão e a Coreia do Sul. Carregados até a borda, seus calados ultrapassam o limite de segurança de Malaca, obrigando-os a pagar o combustível extra de contornar Java por Lombok.

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A soberania arquipelágica da Indonésia (ALKI)

Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) de Montego Bay (1982), a Indonésia conquistou o status formal de Estado Arquipelágico. Isso significa que as águas interiores entre suas 17.508 ilhas são consideradas território soberano de Jacarta.

Para evitar que as superpotências travassem batalhas desreguladas em seus mares internos, a Indonésia designou três corredores de passagem marítima internacional (chamados de ALKI - Alur Laut Kepulauan Indonesia). O corredor ALKI I passa por Sunda e o ALKI II corta Lombok até o Estreito de Macassar.

Ao deter a chave geográfica dessas gargantas marinhas de águas profundas, a Indonésia tornou-se um dos atores mais cortejados e estratégicos da geopolítica mundial, garantindo que o equilíbrio entre o comércio civil visível e as manobras atômicas invisíveis continue passando pelo seu quintal náutico.