Durante os meses de dezembro a março, a metrópole de Montreal, na província de Quebec no Canadá, enfrenta um dos invernos mais severos de qualquer grande centro urbano ocidental: as temperaturas despencam rotineiramente para vinte e até trinta graus Celsius negativos, acompanhadas por nevascas violentas (blizzards) que acumulam mais de dois metros e meio de neve acumulada a cada temporada. Em vez de hibernar ou render-se ao isolamento doméstico, os moradores de Montreal realizam suas vidas cotidianas sem sequer calçar casacos pesados ou botas de gelo. Eles circulam pelo RÉSO (acrônimo para Réseau Souterrain de Montréal, ou simplesmente La Ville Souterraine): a maior e mais complexa rede de passagens subterrâneas climatizadas interconectadas do planeta, estendendo-se por mais de trinta e três quilômetros de galerias escavadas sob o centro financeiro da cidade.

Ficha Técnica Urbanística // O RÉSO de Montreal
Extensão de Galerias33 km de túneis
Área Coberta3,6 km² de superfície
Conexões de Metrô10 estações subterrâneas
Fluxo Diário no InvernoMais de 500.000 pessoas

A Gênese com a Place Ville Marie e o Metrô de 1966

A ideia de criar uma cidade de dois andares — um ao ar livre e outro sob a terra — não nasceu como um plano diretor estatal monolítico de ficção científica, mas como uma engenhosa solução de reurbanização ferroviária na década de 1950.

O centro de Montreal era cortado por uma imensa trincheira aberta de trilhos da Canadian National Railway que isolava o norte e o sul do bairro comercial. Em 1962, o arquiteto modernista I. M. Pei e o promotor imobiliário William Zeckendorf projetaram o arranha-céu cruciforme Place Ville Marie. Para financiar o empreendimento e cobrir os trilhos ferroviários, construíram um shopping center subterrâneo climatizado sob a praça pública com passagens ligando os saguões à vizinha Estação Central de trens.

O sucesso comercial do complexo foi imediato: trabalhadores de escritório podiam descer do trem metropolitano, almoçar em restaurantes aquecidos e acessar seus escritórios sem colocar os pés na calçada congelada.

Quando a cidade inaugurou seu sistema de metrô em 1966 para a Exposição Universal de 1967 (Expo 67), o prefeito Jean Drapeau estabeleceu como diretriz urbanística que os novos túneis do metrô deveriam integrar-se diretamente aos subsolos dos novos edifícios comerciais e torres de escritórios, concedendo incentivos fiscais aos incorporadores privados que construíssem conexões subterrâneas padronizadas com acesso público franqueado.

A Escala do Labirinto: Escritórios, Universidades e Estádios

Nas décadas seguintes, o sistema cresceu exponencialmente até se tornar uma rede orgânica integrada de 33 quilômetros de corredores de pedestres que interliga:

  • 10 estações das Linhas Laranja e Verde da Société de Transport de Montréal (STM);
  • Duas grandes estações ferroviárias (Gare Centrale e Gare Lucien-L’Allier);
  • Mais de 1.700 lojas, butiques e quiosques comerciais;
  • Mais de 200 restaurantes e dezenas de cinemas e praças de alimentação;
  • 40 agências bancárias e complexos de escritórios que concentram 80% do espaço corporativo do centro;
  • Dois campi universitários de grande porte (Concordia University e Université du Québec à Montréal - UQAM);
  • Hotéis de luxo, complexos residenciais de apartamentos e o Centre Bell — a lendária arena de hóquei no gelo com capacidade para 21.000 torcedores do Montreal Canadiens.

Um morador de Montreal que habite em um condomínio conectado à rede pode acordar, descer pelo elevador de seu prédio, pegar o metrô, frequentar aulas na faculdade, trabalhar em seu escritório, fazer compras de supermercado, assistir a uma partida de hóquei e retornar para casa à noite mantendo-se continuamente sob uma temperatura controlada de 20°C a 22°C, mesmo quando o vento polar externo castiga a superfície com sensação térmica de quarenta graus negativos.

“O RÉSO é o triunfo da engenharia urbana sobre a geografia ártica; provamos que uma civilização nórdica pode criar espaços públicos vibrantes onde a estação do ano deixa de ser uma sentença de confinamento.” — Dimitri Dimakopoulos // Arquitetura Subterrânea e Clima Canadense, 1982.

A Arquitetura da Luz: Evitando a Sensação de Claustrofobia

Um dos maiores desafios de projeto enfrentados pelos arquitetos de Montreal foi evitar que os 33 quilômetros de passagens subterrâneas parecessem bueiros escuros, labirínticos ou túneis asfixiantes.

Para combater a claustrofobia e orientar os pedestres, o sistema adota amplos átrios de pé-direito duplo e triplo, claraboias de vidro translúcido no piso das praças superiores que banham os corredores inferiores com luz solar natural, fontes de água em cascata e jardins de inverno internos.

O complexo do Complexe Desjardins, por exemplo, possui uma colossal praça central coberta onde festivais culturais, concertos de música e apresentações de dança ocorrem o ano inteiro com entrada livre para os transeuntes.

A sinalização visual é unificada pelo logotipo estilizado do RÉSO (formado por linhas sinuosas que lembram letras e trilhos) e painéis direcionais nas estações de metrô que indicam claramente se a passagem leva a torres comerciais, universidades ou pontos turísticos de superfície.

Comparativo: As Maiores Cidades Subterrâneas do Mundo

Complexo Subterrâneo Cidade / País Extensão de Galerias Foco Principal Clima de Superfície
RÉSO (La Ville Souterraine) Montreal / Canadá 33 km Transporte, Comércio e Cultura Inverno Polar Subártico (-30°C)
PATH Toronto / Canadá 30 km Conexão Financeira e Varejo Inverno Continental Úmido (-20°C)
Yaesu Underground Mall Tóquio / Japão 15 km Conexão Ferroviária e Alimentação Verões Quentes / Tufões / Densidade
Houston Tunnel System Houston / Estados Unidos 10 km Escritórios Corporativos Verão Hiperúmido e Quente (+38°C)
Underground City (Dixia Cheng) Pequim / China 85 km (fechada) Abrigo Antinuclear Militar Defesa na Guerra Fria

Resiliência Climática e Eficiência Energética

Além do evidente conforto térmico para o pedestre, a cidade subterrânea opera como uma gigantesca máquina de eficiência energética. O solo que envolve as galerias atua como um isolante térmico natural: no inverno, a terra profunda retém o calor geotérmico, reduzindo drasticamente o consumo de energia para aquecimento; no verão, a mesma massa rochosa mantém os corredores naturalmente frescos, reduzindo a carga dos sistemas de ar-condicionado.

O sistema também alivia a superfície urbana: ao transferir meio milhão de viagens diárias de pedestres para os níveis subterrâneos durante os temporais de gelo, as calçadas de superfície exigem menos produtos químicos descongelantes (sal-gema), reduzindo a corrosão da infraestrutura viária e preservando a qualidade das águas do Rio São Lourenço.

Adaptação Urbana // O Clima de Quebec

Durante a tempestade de gelo histórica de janeiro de 1998, que congelou a rede de transmissão elétrica e paralisou o leste do Canadá por semanas, os setores subterrâneos do RÉSO serviram de abrigo aquecido e ponto de distribuição de suprimentos emergenciais para milhares de cidadãos sem aquecimento em suas residências.

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Perguntas Frequentes (FAQ)

O que significa a sigla RÉSO em Montreal?

RÉSO é uma contração fonética da palavra francesa réseau (que significa “rede”) associada a Réseau Souterrain de Montréal. O logotipo oficial foi desenhado pelo designer gráfico Klaus Dunckelman em 2004.

O acesso à cidade subterrânea é gratuito?

Sim. Todas as galerias, corredores, praças e átrios comerciais são de uso público gratuito durante o horário de funcionamento do metrô (das 5h30 à 1h da manhã). O usuário só paga passagem se decidir embarcar nos trens da STM.

Quantos quilômetros de extensão tem o RÉSO hoje?

O sistema possui mais de 33 quilômetros de passagens contínuas interligadas, cobrindo uma área de mais de 3,6 milhões de metros quadrados no subsolo da cidade.