No coração do Mediterrâneo Oriental, a apenas duzentos quilômetros das costas conturbadas da Síria e do Líbano, a ilha de Chipre abriga uma das anomalias territoriais mais fascinantes da cartografia pós-colonial. Quando a colônia britânica conquistou sua independência em 1960, o Império Britânico não se retirou por completo: impôs a retenção perpétua de duzentos e cinquenta e quatro quilômetros quadrados de território continental em duas bases soberanas autônomas: Akrotiri e Dhekelia. Não se trata de concessões de arrendamento temporário como Guantánamo ou bases cedidas à OTAN, mas de pedaços soberanos do Reino Unido, com leis britânicas, postos de escuta ultrassecretos do GCHQ e pistas de caças bombardeiros que influenciam as operações militares em todo o Oriente Médio.

O Tratado de Estabelecimento de 1960 e o Nascimento das Áreas de Base Soberana

A origem das Sovereign Base Areas (SBAs) remonta aos acordos de Zurique e Londres de 1959 e à formalização do Tratado de Estabelecimento de 16 de agosto de 1960, firmado entre o governo britânico e os líderes das comunidades greco-cipriota (Arcebispo Makarios III) e turco-cipriota (Dr. Fazıl Küçük).

Após quatro anos de violenta guerrilha conduzida pela organização paramilitar greco-cipriota EOKA em prol da união com a Grécia (Enosis), Londres aceitou conceder a independência à República de Chipre sob uma condição inegociável: a exclusão expressa de 98 milhas quadradas (254 km²) do novo Estado soberano.

O território foi subdividido em duas partes geograficamente desconectadas: Akrotiri (Área de Base Soberana Ocidental), cobrindo 123 km² na península mais meridional da ilha ao sul da cidade portuária de Limassol; e Dhekelia (Área de Base Soberana Oriental), cobrindo 131 km² no leste da ilha, entre Larnaca e Famagusta.

A Invasão Turca de 1974 e o Quebra-Cabeça da Linha Verde

A singularidade geopolítica das bases britânicas foi colocada à prova dramática no verão de 1974. Em 15 de julho, a junta militar que governava a Grécia orquestrou um golpe de Estado em Chipre para depor Makarios III. Cinco dias depois, em 20 de julho de 1974, a Turquia lançou a Operação Átila, invadindo militarmente o terço norte da ilha.

Durante os combates, as bases britânicas declararam estrita neutralidade, acolhendo dezenas de milhares de refugiados greco-cipriotas e turco-cipriotas sob proteção de suas cercas militares. Quando as armas se calaram, o mapa da ilha havia sido quebrado para sempre.

Dhekelia passou a fazer fronteira com um mosaico inacreditável de jurisdições: ao sul, com a República de Chipre reconhecida internacionalmente; ao norte, com a autoproclamada República Turca de Chipre do Norte (reconhecida apenas por Ancara); e a leste, com a Zona de Amortecimento das Nações Unidas (a famosa Linha Verde patrulhada por capacetes azuis da UNFICYP).

Os Quatro Enclaves Cipriotas no Coração de Dhekelia

Como resultado do traçado sinuoso de fronteiras desenhado em 1960 para acomodar aldeias agrícolas nativas sem expulsar populações locais, a base de Dhekelia deu origem a quatro enclaves territoriais exclusivos da República de Chipre situados inteiramente dentro do perímetro britânico:

  1. A vila de Ormidhia, habitada por cerca de 4.000 cipriotas;

  2. A vila de Xylotymbou, com cerca de 3.500 residentes;

  3. Os dois pequenos territórios da central termoelétrica de Dhekelia, divididos ao meio por uma estrada controlada pela polícia britânica das bases.

Cidadãos cipriotas que vivem nessas aldeias cruzam as fronteiras soberanas britânicas diariamente sem qualquer controle alfandegário ou passaporte, sob as regras da Declaração de Políticas Pós-Brexit acordada entre Londres, Nicósia e a União Europeia, garantindo que as bases permaneçam dentro da União Aduaneira e do Espaço Schengen de facto.

A Estação de Ayios Nikolaos e a Espionagem Global da Five Eyes

Enquanto Akrotiri destaca-se pela sua aviação de caça, a base de Dhekelia abriga a instalação de inteligência eletrônica mais sensível do Reino Unido fora do seu território metropolitano: a Estação de Sinais de Ayios Nikolaos, operada pelo Government Communications Headquarters (GCHQ) e integrada à rede global de inteligência Five Eyes (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia).

Equipada com antenas parabólicas gigantescas de interceptação de sinais de satélite (SIGINT) e radares além-do-horizonte no Monte Olimpo cipriota, Ayios Nikolaos monitora em tempo real comunicações militares, diplomáticas e de dados celulares no Líbano, Síria, Israel, Gaza, Iraque, Irã e no Canal de Suez.

Documentos desclassificados e relatórios de inteligência revelam que os dados brutos interceptados em Chipre são compartilhados instantaneamente com a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, subsidiando operações de contraterrorismo e vigilância naval da Sexta Frota norte-americana no Levante.

RAF Akrotiri: O Porta-Aviões Terrestre do Reino Unido no Mediterrâneo

A joia da coroa da Área de Base Soberana Ocidental é a RAF Akrotiri, uma das maiores bases aéreas da Royal Air Force no mundo. Dotada de uma pista pavimentada de 2.740 metros projetada para acomodar bombardeiros estratégicos pesados e aviões-tanque de reabastecimento em voo, a base opera na prática como um gigantesco porta-aviões fixo insubmersível da OTAN.

A partir de suas pistas decolaram aeronaves de combate britânicas e de aliados ocidentais durante a Guerra do Golfo de 1991, as operações aéreas na Líbia em 2011, os ataques contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque (Operação Shader) e as recentes interceptações de mísseis e drones lançados por milícias no Mar Vermelho e Golfo de Áden em 2024.

Apesar de protestos periódicos da sociedade civil cipriota exigindo a descolonização integral da ilha, o estatuto soberano das bases britânicas permanece protegido pelo direito dos tratados internacionais, constituindo um dos últimos e mais influentes vestígios do império ultramarino da Coroa Britânica.

“As bases britânicas no Chipre não são apenas postos militares avançados; elas são o centro nevrálgico da projeção de força e inteligência do Reino Unido no Oriente Médio.” — Sir Michael Fallon // Ex-Secretário de Estado da Defesa do Reino Unido.

Características Comparativas das Áreas de Base Soberana Britânicas no Chipre

Parâmetro Estratégico Área Ocidental (Akrotiri) Área Oriental (Dhekelia)
Área Territorial 123 km² (Península de Akrotiri) 131 km² (Baía de Larnaca)
Instalação Militar Principal Base Aérea RAF Akrotiri e Hospital Militar Estação SIGINT de Ayios Nikolaos e Guarnição de Dhekelia
Fronteiras Adjacentes Apenas República de Chipre Rep. de Chipre, Chipre do Norte e Linha Verde da ONU
Enclaves Internos Nenhum enclave civil 4 enclaves da Rep. de Chipre (Ormidhia, Xylotymbou)
Missão Primária Projeção de poder aéreo e bombardeio tático Interceptação de sinais (GCHQ) e inteligência eletrônica

O Curioso Regime do Euro e do Pós-Brexit nas Bases Soberanas

Embora Akrotiri e Dhekelia sejam juridicamente território soberano britânico, a moeda oficial em circulação nas bases não é a Libra Esterlina (£), mas sim o Euro (€). Quando a República de Chipre adotou a moeda única europeia em 1º de janeiro de 2008, o Reino Unido assinou um tratado financeiro específico determinando o uso do euro dentro das bases para garantir o funcionamento harmonioso do comércio e do trabalho dos milhares de funcionários cipriotas que prestam serviços às guarnições. Com o Brexit em 2020, um protocolo anexo ao Acordo de Retirada do Reino Unido manteve as bases no território aduaneiro da União Europeia, evitando a instalação de qualquer fronteira física na ilha.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Por que as bases de Akrotiri e Dhekelia não pertencem ao Chipre?

Porque no Tratado de Estabelecimento de 1960 que garantiu a independência de Chipre, o Reino Unido reservou sob sua soberania integral perpétua 254 km² de território para fins militares e de inteligência.

Quais países fazem fronteira com a base britânica de Dhekelia?

Dhekelia faz fronteira com a República de Chipre, com a autodeclarada República Turca de Chipre do Norte e com a Zona de Amortecimento controlada pelas Nações Unidas (Linha Verde).

Qual moeda circula nas bases britânicas em Chipre?

A moeda oficial em circulação é o Euro (€), adotado por tratado especial em 2008 para facilitar a circulação diária com a República de Chipre, mesmo após a saída do Reino Unido da União Europeia.